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Dependência da Internet

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Quais as causas da Dependência da Internet?

A capacidade de satisfação de diversas necessidades torna a Internet um meio susceptível para o uso excessivo. No entanto, a utilização elevada da Internet não constitui, por si, um comportamento dependente. Segundo o modelo de aprendizagem de Marlatt, Baer, Donovan e Kivlahan (1988; cit, por Song, et al., 2004), só quando a utilização da Internet se torna um objectivo em si mesma, passando a ser fonte de preocupação para o indivíduo, é que esta se torna um comportamento dependente. Isto acontece quando as gratificações que advém da utilização da Internet se tornam uma resposta condicionada. Deste modo, quando começam a surgir consequências negativas da utilização excessiva da Internet, estas fortalecem a resposta condicionada, iniciando-se uma espiral descendente de dependência da Internet.

Segundo Baptista (s/d), não é claro se a utilização compulsiva da Internet se deve a este ser um novo meio, que apresenta conteúdos potencialmente viciantes, ou se se deve a uma estrutura de funcionamento da personalidade que é propensa a comportamentos de vício, e que encontrou na Internet uma nova expressão. No entanto, para este autor, um aspecto que se pode constituir como uma influência para o estabelecimento da dependência da Internet é o facto desta introduzir uma noção de imediaticidade na obtenção de satisfações pessoais, impedindo a prossecução de objectivos mais elaborados.

Diversos estudos, citados por Morahan-Martin (2005), consideram que é a própria natureza da Internet que a torna propensa à dependência. Deste modo, qualidades como a velocidade e estimulação do seu conteúdo (Greenfield, 1999), interactividade e facilidade de utilização (Chou, 2001), acessibilidade e quantidade de informação acedida (Chou, 2001; Greenfield, 1999), propiciam a utilização dependente da Internet.

Segundo Young (1998), a Internet não causa dependência por si só, mas aplicações com características interactivas desempenham um papel significativo no desenvolvimento da utilização patológica da Internet. Deste modo, as salas de conversação e os MUDs encontram-se entre as aplicações da Internet mais aditivas, sendo seguidas pelos newsgroups e correio electrónico. As aplicações consideradas menos aditivas são a World Wide Web e as fontes de informação (Young, 1997). De acordo com Morahan-Martin (1999; cit. por Morahan-Martin, 2005), quanto mais tempo os utilizadores passam on-line, maior a probabilidade de utilizar a Internet para suporte emocional, conhecer novas pessoas e interagir com os outros.

A possibilidade comunicacional é, então, uma característica da Internet que pode tornar os indivíduos mais susceptíveis a uma utilização compulsiva da mesma. Uma das razões para este facto refere-se à utilização da Internet como fonte de suporte social. No ciberespaço desaparecem as convenções sociais havendo, num conhecimento inicial, um envolvimento fácil na vida de pessoas que não se conhece. Além disto, porque a identidade está mascarada, cria-se uma sensação de liberdade para exprimir opiniões controversas sem medo de rejeição, confrontação ou julgamento. Deste modo, o uso da Internet surge como uma alternativa para desenvolver bases sociais que não estão presentes nos ambientes imediatos do indivíduo.

A Internet permite ao indivíduo experimentar diferentes percepções de si próprio (Rheingold, 1996; cit. por Young, 1997). Segundo Turkle (1995; cit. por Young, 1997), permite a multiplicidade da identidade, com a possibilidade de “reconstrução” da mesma. A falsa imagem de si, com alteração de características como género, idade ou raça, que a comunicação mediada pela Internet permite apresentar, tende a ser criada por indivíduos com baixa auto-estima e sentimentos de inadequação, que dependem da libertação das suas vidas secretas on-line para bloquear tais auto-conceitos negativos. Isto é particularmente saliente na criação de personagens MUD, que permite a assumpção de papéis virtuais de liderança e subordinação. A forte identificação com a personagem permite um ganho de auto-estima a cada encontro virtual.

A investigação tem demonstrado uma relação entre certos traços de personalidade e a utilização patológica da Internet. Uma das conclusões refere-se a que os indivíduos extrovertidos têm menor probabilidade de procurarem interacção social na Internet, provavelmente porque já têm essa necessidade satisfeita na vida real (Hamburguer e Bem-Artzi, 2000; cit. por Engelberg & Sjöberg, 2004). Inversamente, para os indivíduos com um nível elevado de timidez, a Internet pode oferecer-se como uma alternativa para gratificar as necessidades sociais e emocionais (Leung, 2003; cit. por Chak & Leung, 2004), tarefa facilitada face à ausência de constrangimentos de tempo para preparar as mensagens e ausência de observação directa por parte dos outros (Carducci & Zimbardo, 1995; cit. por Chak & Leung, 2004). No entanto, segundo um estudo de Chak & Leung (2004), apesar de um nível mais elevado de timidez estar associado a um aumento moderado na probabilidade de dependência da Internet, a timidez não parece predispor especialmente para um maior ou menor uso das funções comunicativas da Internet. Os homens tímidos tendem mesmo a considerar tão difícil a comunicação on-line como a off-line.

Outras investigações demonstraram relações entre características individuais e a dependência da Internet. De acordo com Young (1998), os indivíduos com capacidades de pensamento mais abstractas têm maior probabilidade de desenvolver padrões de utilização dependente da Internet, pois são atraídos pela estimulação mental oferecida pela infinidade de bases de dados e informação disponível. Indivíduos que levam um estilo de vida mais solitário e socialmente inactivo têm maior risco de desenvolver dependência da Internet, por um lado porque tendem a sentir-se mais confortáveis face a períodos prolongados de isolamento social (Shotton; cit. por Young, 1998) e, por outro lado, porque as possibilidades interactivas da Internet ajudam a criar um sentimento de ligação aos outros utilizadores, apesar de fisicamente sozinhos (Young, 1998).

Os resultados do estudo de Engelberg & Sjöberg (2004) indicam que os problemas nas suas vidas reportados pelos indivíduos dependentes, surgem devido a uma falta de auto-controlo, ou seja, à incapacidade para moderarem e controlarem a utilização excessiva da Internet. Por outro lado, segundo Chak & Leung (2004), indivíduos que tendem a atribuir um locus de controlo externo, não acreditando que possuem controlo sobre a sua vida, têm maior probabilidade de desenvolver uma dependência da Internet.

Segundo estudos citados por Morahan-Martin (2005), aqueles que abusam da utilização da Internet têm maior probabilidade de exibir distúrbios noutras áreas da vida, incluindo depressão, desordem bipolar, compulsão sexual e solidão. Estas conclusões conduziram a um debate acerca da existência de uma relação de causa e efeito entre o abuso da Internet e outras desordens. No entanto, estas relações ainda são incertas sendo preferível reconhecer a coexistência de abuso da Internet com outra psicopatologias sem especificar a relação.